sábado, 11 de julho de 2026

China impõe sobretaxa a carne brasileira e gera crise no setor


Vendedora em açougue (Sean young/Reutres/Veja)


Enquanto o noticiário internacional costuma dar destaque aos embates tarifários espalhafatosos, como os protagonizados pelo governo americano, uma mudança silenciosa, mas profunda, na política comercial chinesa tem causado impacto direto na economia brasileira. Desde o início de 2026, a China implementou uma salvaguarda comercial que estabeleceu uma cota restritiva para a importação de carnes, resultando em uma sobretaxa que o setor produtivo classifica como "impraticável".

A medida, oficializada em dezembro de 2025 e em vigor desde o primeiro dia de 2026, impôs uma tarifa extra de 55% sobre o volume de carne que exceder a cota anual permitida de 1,106 milhão de toneladas. Somada à taxa regular de 12%, a alíquota total salta para 67%. O problema central reside no fato de que o teto estabelecido por Pequim está significativamente abaixo do desempenho comercial recente: em 2025, o Brasil exportou 1,68 milhão de toneladas para o mercado chinês, volume 35% superior ao limite atual.

Impacto nas linhas de produção

O efeito prático da política já é sentido no chão de fábrica. Com a cota praticamente esgotada antes mesmo do segundo semestre, dezenas de frigoríficos, especialmente em polos exportadores como o Mato Grosso, foram forçados a paralisar atividades e conceder férias coletivas.

A tentativa de redirecionar essa produção excedente para o mercado interno enfrenta obstáculos, pressionando para baixo o preço da arroba do boi gordo e ameaçando as margens de lucro dos pecuaristas. Além disso, a busca por mercados alternativos, como a União Europeia e o Oriente Médio, esbarra em limitações logísticas e de preço, cenário agravado pela suspensão das importações brasileiras pelos europeus, prevista para setembro.

Diplomacia em busca de solução

Diante da gravidade do quadro, o governo brasileiro iniciou, em maio, negociações com Pequim visando a ampliação da cota a partir do ciclo de 2027. Embora existam sinais de distensão, como a recente liberação de frigoríficos que estavam impedidos de exportar —, o setor continua refém de uma estratégia chinesa desenhada para proteger seus produtores locais.

Até que as negociações alcancem resultados práticos, o agronegócio brasileiro enfrenta o desafio de conviver com o "tarifaço" silencioso, um movimento de longo prazo que demonstra a eficácia da diplomacia comercial chinesa em impor limites ao mercado brasileiro sem recorrer ao espetáculo político.

Baseado na análise de Diogo Schelp, colunista da VEJA

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